quinta-feira, 29 de junho de 2017

Uma desconhecida decepção, muitas lágrimas nos olhos e um acerto de contas

Antes que você se assuste com o título, a declaração a seguir é importantíssima para a explicação deste: a decepção não foi tanto por parte do conteúdo da história em si, mas com minha falta de atenção e conhecimento acerca das edições da DC Comics.

Fonte: Tumblr. (Quem não se apaixona, não é mesmo?)
Quem me conhece bem sabe que tenho uma quedinha quase similar à de um precipício pelo Roy Harper, conhecido por muitos como o parceiro do Arqueiro Verde. Estou em busca de toda e qualquer história envolvendo o personagem para poder conhecê-lo mais (aceito recomendações nos comentários!), e inevitavelmente, por ter sido parceiro do mesmo durante muito tempo, eu terei de ler as HQs do Oliver Queen, apesar de não ir muito com a cara dele. Caminhando pela Saraiva, escondidinho entre outros nomes importantes da DC, acabo por encontrar o seguinte volume:

Fonte: Ana Clara Medeiros

O que eu tinha em mãos fazia parte de uma coleção chamada “Lendas do Universo DC”, a qual traz importantes personagens em suas épocas de ouro. Há volumes para o Batman, Superman e afins, mas essa em especial – vol. 2 – estava focada na dinâmica dupla Lanterna Verde/Arqueiro Verde. Os dois guerreiros esmeralda fizeram muito sucesso juntos nas décadas de 70 e 80, e até hoje são muito amigos no universo em que se encaixam. A capa, como vocês podem ver, nos exibe o fatídico momento em que Ollie descobre que seu parceiro mirim é viciado em drogas.

Por mais que pareça um pouco blasé, essa grande revelação foi um marco para época, pois “para os que não sabem, essa foi a primeira vez na história que um herói das HQs (Roy Harper ainda mantinha seu manto de Ricardito, parceiro de Arqueiro Verde) foi retratado como sendo dependente de drogas. Se ainda hoje é chocante vermos um campeão da justiça sofrendo uma crise de abstinência nas páginas de uma revista em 1972, quando a história saiu, o impacto na indústria foi algo muito próximo ao de uma bomba nuclear”. Os EUA estavam passando por um surto de heroína gigantesco, onde era praticamente comum encontrar pessoas apagando em meio as calçadas por causa da droga. Esse foi o principal ponto de inspiração para os autores Dennis O’Niel e Neal Adams, nomes gigantes dos quadrinhos.

Ainda sobre as escolhas que tiveram de tomar durante a criação da história, O’Niel também sublinhou o fato de terem retratado um personagem conhecido em vez de optar por inventar um. ‘Escolhemos o Roy para conseguirmos o máximo de impacto emocional. Achamos que um herói estabelecido torturado pelo vício seria bem mais forte que... Um qualquer que criássemos só para a ocasião. Além disso, quisemos mostrar que a dependência não estava limitada somente aos garotos maus ou perdidos’”.

Não pensei duas vezes e adquiri o produto, o qual saiu por volta de 27 reais, mais ou menos. O que eu não esperava era que o volume, assim como vários outros dessa linha das lendas, ademais vinha não somente com a história que me interessava, como também mais 4 histórias diferentes.

Comecei a pesquisar em torno disso, já que estava curiosa e um tanto frustrada com o fato. Não queria simplesmente pular as 4 histórias que vieram de bônus – essas, detalhe, vêm todas na frente da principal exibida na capa – mesmo que significasse ler mais sobre o Arqueiro Verde e o Lanterna Verde. Acabei descobrindo através de um vídeo muito legal do Pipoca e Nanquim que a DC faz essas edições com esse intuito mesmo para vender as histórias que não estão muito boas no mercado, embutindo-as à um título muito famoso e requisitado. Passada ESSA a decepção, (já podem rir de mim) comecei a ler.

Em relação à qualidade, o volume valeu cada centavo. O papel é daqueles de HQ mesmo – tem até o cheirinho que eu adoro haha – a edição toda colorida vivamente, lombada durinha. A capa é maravilhosa, mas para os que gostam de edições durinhas, essa é mole, contudo é inegável o cuidado que foi tido com a montagem e impressão do material.

Já no de fato conteúdo, tenho a dizer que paguei pela boca e me impressionei bastante. Entendi totalmente porque a dupla fez sucesso. As “histórias de menos visibilidade comercial” são muito boas! Bem construídas, cheias de diálogos engraçados e precisos – uma parte da graça veio das gírias dos anos 80 adaptadas para a HQ. Você verá coisas como “beleza pura”, “gatinha”, etc – a ação é constante e muito bem desenhada. Fiquei encantada em cada momento, esquecendo até que não curtia a personalidade dos personagens, os quais estão bem mais jovens e soltos em todo o momento.
De primeira, somos apresentados à uma aventura espacial que também envolve os Guardiões do Universo, a dupla verde e até mesmo a Canário Negro (ela, inclusive, tem muito peso em todas as histórias do volume, com papel e importância de destaque. Achei isso muito bacana!), unidos para enfrentar um mal acerca de uma explosão demográfica em um planeta condenado. Conheci mais o Hal Jordan e seu famoso juramento, o qual inclusive deu nome para uma das sagas mais brilhantes da DC, na minha opinião, A Noite Mais Densa e O Dia Mais Claro. Confesso que da primeira vez que ele fez o juramento, foi bem impactante, porém ele faz isso mais umas 20 vezes em toda a história, acabou perdendo o impacto, haha. Depois, temos uma mistura de deuses mitológicos, amazonas – não tem Mulher Maravilha, mas suas conterrâneas estão todas lá – e Lanternas de outras cores. Em seguida, partimos para a melhor, na minha opinião: imagine um orfanato cheio de crianças comandadas por um velho ridículo, esse mesmo velho possui uma garotinha que tem poderes mentais, piorando toda a situação para o lado dos heróis. O final é bem misterioso, e ainda mais, somos apresentados ao amor da vida de Hal Jordan, que infelizmente se encontra paraplégica.

Muito pouco tenho a dizer da última história que antecede à minha tão esperada e intitulada “Nas Veias”. Sério, um herói que tem o plástico como seu ponto fraco? Tentei muito, porém a história foi bem mais tragicômica para o lado do Lanterna. O Arqueiro está mais para o coadjuvante descolado, impulsivo e cheio de boas piadas.

FINALMENTE chegando na tão esperada e prometida edição a respeito de Roy Harper e seu declínio, temos um início com certeza impactante: “Alguns vão dizer que a história a seguir não devia ser contada... E outros, que tais eventos não têm espaço em uma revista voltada para a diversão... E talvez estejam certos! Mas nós não pensamos assim... Porque já vimos essas nobres criaturas os seres humanos, arrasados... Tornando-se menos que animais... Imersos no inferno da agonia! Nós vimos... Ficamos furiosos... E este é o nosso protesto!” Oliver e Hal descobrem que há quadrilhas de contrabando de drogas espalhadas por toda a Star City, e que as mesmas estão destruindo principalmente com os jovens. O Arqueiro Verde se mostra muito revoltoso com os viciados, reduzindo-os a nada sempre quando são mencionados. Já sentimos daí o clima tenso que será na hora da grande descoberta. Também nos é apresentado o fato de que o Arqueiro Verde passou mais de um mês sem entrar em contato com seu parceiro, este, desaparecido.

Entre disputas que realmente não são fáceis de enfrentar, – por consequência de uma luta, Oliver tem um braço debilitado, o que acaba dificultando as coisas – Roy tenta ao máximo ajudá-los e já deixar claro o que se passa consigo, mas o espaço de fala quase nunca lhe é dado. O combate final entre a máfia e nossos heróis é satisfatório e bem bacana, mas o que ainda está por vir faz gelar até o mais forte dos estômagos.

Já quase no fim da edição, com o mal vencido e tudo resolvido, Oliver e Hal se reúnem e começam a discutir sobre o que levaria alguém a entrar para o horrível mundo das drogas. Roy se mostra tímido, porém não fica calado e dá um exemplo extremamente parecidíssimo com o seu. Ignorado por seu mentor e o melhor amigo do mesmo, é deixado de lado enquanto os adultos resolvem o resto e se despedem. Ao voltar para casa, a impactante cena de Roy sendo pego consumindo heroína é a última dos quadrinhos. “Sobre quem você acha que eu estava falando?” sua fala final fecha a edição maravilhosamente.

Achei um pecado esse volume não conter a edição 86, – a seguinte depois da descoberta – pois ela mostra como ficou a relação entre o Roy e o Oliver. Recomendo bastante que vocês procurem pelas interwebs depois. 
Fonte: Ana Clara Medeiros. Cenas da ed. 86. De partir o coração!

Com certeza engoli tudo de ruim que eu tinha para falar a respeito do Lanterna e do Arqueiro Verde. Vale muito a compra, ainda mais se você quiser saber mais sobre o Roy Harper. Ahn! Lembrando que não é preciso saber o que se passava com os personagens antes, pois os quadrinhos fazem questão de lembrar várias vezes, adorei isso! Inclusive, acho que uma fanfic sobre o Roy Harper surgirá em breve. Avisarei quando acontecer, ok? Podem esperar por muitas outras resenhas de HQ, além de livros também!


P.S.: Tem muita novidade vindo por ai. Aguardem! 

Os textos em itálico foram retirados dos extras contidos na edição Lendas do Universo DC vol. 2: Lanterna Verde & Arqueiro Verde.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A Metamorfose, meio acadêmico literário | perculiaridades e compreensão (rasa, porém importante) do dever da análise literária

Sei que estou mais do que em falta, não só pelo gigante hiatus entre esta postagem e a última, como também sobre o conteúdo que trago aqui. A ex última publicação que falava sobre o mundo das fanfics – já deletada – além de estar mal estruturada para a página, não trazia um conteúdo bom e claro. Peço perdão por isso.


Foi na releitura de meu ex último post e nas várias ideias de escrever para o blog que me redefini quanto conteúdo autoral do mesmo: ou escrevo sobre o que achei dos livros que li ou posto alguns escritos meus, ponto. Se alguma outra coisa do meio da literatura – ou até fora disso, quem sabe? – for interessante o suficiente para mim e para você – deixe nos comentários sobre o que você quer ler, é sempre bem-vinda uma opinião diversa – redigirei sobre. Desta vez, mais detalhadamente e melhor escrita. Prometo.

Fonte: In-justificado

Todo escritor – ou aspirante a tal, peço perdão pela licença não registrada em minha carteira de trabalho – tem seus problemas com criatividade e inspiração. Não é todo mundo que tem ideias geniosas o tempo todo, e para a vida da universitária que vos fala, absorver o mundo e meu campo das ideias, a fim de espremê-los todos e colocar isso em um papel está sendo deveras complicado. É o tal do bloqueio criativo que me parece estar feliz em conviver comigo por quase um ano e uns quebrados. Aproveito os poucos momentos, como este, em que percebo a trégua, para só então colocar a mão na massa. Se tratando de leitura então, pior ainda! Somente textos teóricos me são engolidos ferozmente. De resto, não há tempo para o meu deleite literário.

Contudo, resolvi abrir uma brecha dentre minhas várias leituras programadas para esse ano – quase todas estão no meio, disso parece que não consigo sair (risos) – e resolvi anexar uns livrinhos bem peculiares. Para quem não sabe – e para quem não leu minha descrição logo ao lado, - eu curso Letras Bacharelado com ênfase em estudos literários. A teoria da literatura, por mais óbvio que seja dizê-lo, me é fundamental. Uma coisa que gosto bastante nesse campo é a forma como a teoria é muito bem servida de exemplos, e são esses exemplos que me intrigam bastante, por serem além de muito falados e estudados, novos para mim. Sabe como é: você ouve falar da coisa, mas não procura ler a coisa. Vejam bem: o ramo da literatura caiu em meu colo nos meados dos meus 10, 11 anos. Até lá, meu conhecimento de mundo era tão restrito e mínimo, e nem sequer se passava por mim isso de me ater a ler clássicos consagrados, etc. Quando se tem 10 anos, qualquer aventura não muito complicada já é uma baita história.

Minha expansão de conhecimento de livros veio na minha época de vestibular, e está se intensificando com a faculdade, amém. Saí anotando cada autor dado como exemplo nas teorias para que eu pudesse ler todos assim que desse. Logo menos, teremos Balzac aparecendo por aqui também. Entre os tantos e tantas, estava Kafka e um amigo de turma, o André, o qual insistiu que eu precisava entrar no mundo de A Metamorfose. Unindo o útil ao agradável, temos uma leitura “necessária” – não entendam mal as aspas, por favor – e fins e meios bem justificados.

Vou abrir um parêntese em relação a um dos pontos do título no meio do texto. Até lá, sigamos.


Fonte: Diário do Engenho
A Metamorfose é uma novela escrito pelo já citado – e muito bem falado, tanto pelo André quanto pelo meio acadêmico – Franz Kafka, este um austro-húngaro judeu. Chegou a fazer uns bicos – bons bicos, inclusive – como ilustrador e já chegou até a trabalhar em uma empresa de seguros - quem diria?

Já que não sou boa com resumos de enredo, eis a ajuda da querida demônia Wikipédia: Em resumo, nesta obra de Kafka, ele descreve um caixeiro viajante que abandona suas vontades e desejos para sustentar a família e pagar a dívida dos pais, tendo o nome de Gregor Samsa. Numa certa manhã, Gregor acorda metamorfoseado em um inseto monstruoso.

A partir daí, a narração gradativa vai te colocando a par de como é esta – dã – metamorfose, já que ele não vira simplesmente um bicho da noite para o dia. É como se aos poucos, Gregor fosse perdendo a humanidade, tornando-se cada vez mais animal. O ponto de vista da família dele em relação a esse acontecimento é presença indispensável no texto. Temos aqui uma narrativa circular super bem amarradinha e muito, mais muito bem escrita. É daquelas que você simplesmente não consegue parar de ler, mesmo que o livro não te grude a atenção. O que me despertou um olhar mais delicado foi justamente essa mudança repentina. Imagine-se acordar totalmente transformado em um inseto gigante? Ahn, bom destacar que não se sabe direito que tipo de inseto é, já que ele se parece com uma barata em certos aspectos e com uma centopeia em outras. Será mesmo que aquilo teria acontecido? Era tudo da cabeça de Gregor Samsa? 

Personagem esse, inclusive, que tem o ponto de vista privilegiado na narrativa, ou seja, é super fácil de acreditar nele, de ter pena de sua situação, de recriminar os atos de todos os outros contra o pobre bicho. Detalhe que Gregor realmente me deixou abalada até o meio da narrativa, quando o caríssimo André me lembrou de algo muito importante: – e que logo eu, tão fã de Machado, havia me esquecido – desconfie. Analisando tudo o que foi feito por seus parentes, desde uma mãe traumatizada, degradada aos poucos pela ideia de estar perdendo seu filho para um evento sobrenatural bizarro, até uma irmã e um pai que do meio para o fim já estão convencidos de que Gregor tornou-se algo que não ele, não valendo mais a pena mantê-lo vivo e sobre o teto da família. Eu acabei o livro ainda tendo sérias dúvidas sobre essa questão do “aconteceu ou não?”. Tudo, no fim, é uma grande metáfora. Foi o que me pareceu, pelo menos.

Fonte: meu lugar no mundo. (eu adorei essa imagem!)
Não sei explicar ao certo, e isso talvez possa ser bastante contraditório já que a história é vista pelo ponto do sofredor da metamorfose, porém eu senti falta de mais partes em que os sentimentos da personagem ficassem mais evidentes, afinal, ele foi perdendo tudo aos poucos, desde o trabalho, o interesse da família, o sentido de viver. Eu vi muito mais narração dos fatos, por mais que eles falem por si só, certas vezes, do que a descrição da agonia, do que seria tão estranho aos olhos de Gregor. Não foi um enredo que me cativou, mas dou um juízo de valor positivo e imenso para a narrativa, para a fôrma literária de Kafka neste livro. Foi uma literatura que teve lá seu sentido para mim, principalmente depois da leitura, onde divaguei muito sobre a questão psicológica envolta da narrativa.

Para mim, A Metamorfose não foi lá "essas coisas". Para mim.

Não consigo descrever com precisão meus pensamentos justamente na parte do livro que mais me interessou, o psique. Penso que eu conseguiria detalhar muito melhor isso conversando contigo cara a cara, leitor, coisa que até poderia "acontecer" caso eu fizesse vídeos ao invés de textos. Ou fazer textos e vídeos sobre, lado a lado, sabe? Alguns já me deram essa sugestão, e é algo que estou a ponderar. Até lá, os comentários estão mais do que abertos para nos comunicarmos.

O que – surpreendam-se – me deixou mais abalada com o fim dessa narrativa foi o depois. Afinal, estou eu em um meio literário onde Kafka é um grande gênio, um consagrado, e falar mal dele poderia, de certo ponto de vista, diminuir-me nesse. Somente após muito refletir e até conservar com outros amigos sobre, além de lembrar-me de minhas maravilhosas aulas na cadeira de Análise de Textos Literários, é que, afinal de contas, esse é o trabalho de quem faz uma análise, coisa que eu tenho – muito amadoramente e em aprimoramento – tentado fazer, e como ainda não me sinto preparada e instruída o suficientemente para redigir uma super análise bem detalhada de obra A ou obra B, meus pontos comentados são bem mais na superfície do negócio. Dentre outros inúmeros aspectos, um dos principais para o feitor de análises é reconhecer a contribuição, inovação e questões de fôrma literária, de estilo, criatividade, etc, de uma obra, excluindo por parte a opinião pessoal disso. Kafka inovou as narrativas, já foi chamado de “O Dante do século XX”, inspirou um termo (kafkiano), recebe destaque até hoje na literatura por sua perspectiva e visão, e bem, se você leu o texto até aqui, percebeu que repeti “é considerado um grande gênio (e sinônimos) da literatura no meio acadêmico" mais de três vezes, até. Posso não ter curtido o embalo de A Metamorfose, mas posso certamente curtir outras de suas obras. Não abandonei o escritor, e saber separar sua importância da minha opinião, e em cima de somente uma única obra, já foi um grande avanço para mim mesma. Não é tão fácil quanto parece. Aqui o parênteses. 

Na análise literária, gosto pessoal se discute em outros níveis, em outros termos. 

Dei-me conta de que toda essa ideia de que se é preciso gostar de algo porque se todo mundo da área gosta, você tem que gostar também, é sem medir a língua, “mó ideia errada”. Engraçado como vamos descobrindo que nem tudo é como parece em realidade para qualquer campo que decidamos seguir.

É isso.

Conversem comigo nos comentários! Estou tentando avançar mais em minhas leituras a fim de trazer mais resenhas, análises, etc. Caso queiram me indicar livrinhos, também aceito sugestões! 


sábado, 7 de janeiro de 2017

Essa história de ter pressa

Fonte: Ana Clara Medeiros. P.S: o modelo também foi por minha conta. 
Mais difícil do que ver enterro de anão (já dizia meu pai) é convencer um ansioso - muito transtornado, por sinal - de que não se deve ter pressa. Quiçá a chatice de não ter ninguém que te entende, porque achar alguém igualzinho a você só reflexo de espelho mesmo e olhe lá, ainda ter de escutar esse papo furado de que "é tudo coisa da sua cabeça". Nervos surtam real!

Por exemplo: são exatas 2h09m da manhã enquanto eu redijo qualquer coisa que seja este texto porque minha mente e meu coração estão a mil. Não sei se com você, leitor, é assim, mas comigo... É como se eu sentisse cada pontinha do meu corpo exercendo sua função, desde o dedo formigando ao bater na tecla até os pensamentos caminhando pelos neurônios. Sinto o coração pulsar batida por batida, o fino barulho do nado do sangue, etc. É pior do que bloco de carnaval na frente da sua casa, juro! Imagine o single do verão em volume máximo dentro da sua cachola e já não queira mais imaginar. Como aquietar essa confusão toda é de perto a maior dúvida dos psicólogos, pesquisadores, eu e outros como eu. No meu caso em particular, escrever ajuda bastante a acalmar, e daí me vem a onda de tentar ser uma Clarice, cheia de epifania para dar e vender em timeline de facebook e tumblr. A questão é que quando não estou me movendo, estou me movendo. Insônia, stress, vontade de gritar o mundo inteiro dentre outros sintomas típicos de uma ariana nata. Todo ariano deve ter um Q de ansioso. Papo para outro texto, sigamos.

Engraçado é que mesmo tendo tudo isso dentro do peito, eu não consigo me sentir viva na maioria das vezes. Sabe viva? Já parou para pensar o que é essa tal de vida que você tem a chance de viver? Essa coisinha que no teu dia a dia parece ser chata, parece estar ruim, parece ser um paraíso. Isso ai de quase todo mundo se arrepender de mil ou nenhuma coisas, além de reclamar em demasia. Pra quê pensar nisso? Eu cantarolava nos meus 10 anos, em que toda a minha preocupação se resumia a NX Zero e boas doses de brincadeiras de rua. Não sei se é pela falta de vento no rosto - falando nisso, até comecei a correr e a colocar a cabeça para fora da janela do ônibus, mesmo quando reclamam - ou se pelo fato de que agora tenho essa idade que todo muito parece querer ter, e praticamente tudo se joga em cima dos seus ombros sem dó nem piedade, desde emprego, faculdade, família, amor, dentre outras da fase chata de se estar finalmente virando gente. No fim das contas, tem vezes em que me belisco para ter a certeza de que estou mesmo ali naquele meio, vivinha da Silva respirando pelos pulmões asmáticos que Deus me deu. 

Isso me deprime.

Porque eu pareço ser muito diferente de todo mundo, pareço querer aproveitar tudo mais devagar e intensamente de um jeito quase insano, diria até fatal. Quem quer lá morrer tão jovem? Quem quer lá essa história de morrer? Mas do que adianta ter medo da morte se você é um zumbi ambulante? Talvez eu precise realmente voltar para o psicólogo e descobrir se isso é distúrbio da minha mente ou somente falta de vitaminas.

No meio disso tudo, eu passo a querer ser rápida. Não tanto como o Flash, porém o suficiente para ver se consigo - quando consigo - viver tudo o que quero. Ué, parece que foi ontem que Pela Última Vez resumia todo um romance adolescente com o cabeça grande da 6ª série e do nada eu já preciso de um emprego? Infância de interior foi feliz e tal, contudo eu não estava lá muito preocupada em registrar pesadamente - quase feito tatuagem na pele - as coisas que vivi. Voltar no tempo pode? Ralar o joelho mais umas 30 vezes então? Correr contra o tempo enquanto eu não me entendo também me deprime. Na verdade, me deixa bastante confusa.

E este texto não será nem tanto como uma declaração de amor ou coisa do tipo. A esmo, nem sei como cheguei aqui, nesse quase meio de parágrafo tentando desabafar algo sobre mim que nem entendo direito. Hoje mesmo voltei com minha mania chata de andar com o bloquinho detonado do Star Wars por ai anotando passo por passo de como seriam meus dias seguintes, semanas seguintes. Me preparar psicologicamente para entrar de cabeça em tudo o que vou fazer, me dedicando a cada ponto. Você ri de mim, como sempre, me segura pelos ombros e vem com o papo "vamos com calma" e "deixa tudo pra amanhã que no dia certo as coisas acontecem". Você cantarola músicas que seu pai te apresentou, toca com delicadeza as maçãs do meu rosto e parece que estou a ponto de ter uma parada cardíaca. Tudo para. Tudo para para girar em torno da sensação de estar, quem diria, amando alguém como nunca mais achei que fosse amar de novo. Parece até que estou viva viva mesmo, sem precisar de belisco.

Dizer que não há mais motivos para ter pressa seria equivocado demais. Quando muito, estarei sempre olhando para o relógio e dando umas puxadinhas na pele do meu próprio braço.

Mas você terá esse olhar sobre mim.

E isso foi o suficiente para aquietar meus dedos, meu coração e minha alma.

Até a próxima crise, é claro.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Magia, medievalismo e Lila Bard



Arte da capa americana. Fonte: Google
Um Tom Mais Escuro de Magia pertence à mente de V. E. Schwab, a qual não é pioneira quando se trata de escrever sobre fantasia. Venceu diversos prêmios em 2013 e 2014 com suas outras obras, além de ser muito elogiada por autores best-sellers do New York Times. Sua mais nova aposta no ramo da literatura fantástica veio para as terras brasileiras em meados de 2016, mais precisamente em agosto. Conquistou muitos fãs fora e dentro do Brasil, não em uma escala Harry Potter, mas sim um espaço caloroso no coração dos leitores, os quais se mostraram bastante satisfeitos. Em pequenas pesquisas feitas por mim em alguns blogs de literatura, as críticas são, em sua maioria, positivas. Gabriella, – maravilhosa! – a ponte que me ligou às 418 páginas desse livro, também não poupou elogios, além de tentar me deixar a par desse universo da literatura mais mágica, o qual confesso não ter tanta familiaridade.

O enredo já é audacioso e intrigante logo de cara: imaginem vários universos paralelos. Em cada universo desses, existe uma versão de Londres. Em Um Tom, a trama concentra-se em quatro: Londres Vermelha (a magia aqui pulsa com alegria e controle), Londres Cinza (há pequeninos resquícios de magia, mas o lugar, assim como o próprio nome, tornou-se fraco e sem vida. Na minha opinião, a Londres Cinza representa a Londres que nós conhecemos inserida naquela época), Londres Branca (a magia tomou posse de tudo e todos, transformando o lugar, o deixando poderoso, mas temido e hostil) e Londres Preta, a qual não existe mais. Em meio a tudo isso, deixando de lado alguns detalhes para que sua leitura seja o mais surpreendente possível, temos Kell.

Kell não é simplesmente um ser mágico comum. Ele é um Antari, que em explicação básica é alguém com um controle de magia e equilíbrio muito maior do que os outros, nascido com o propósito de “servir” ao rei e rainha de sua Londres em algumas tarefas que somente ele consegue executar. A personalidade deste vai sendo moldada de acordo com a narrativa, o que eu gostei deveras. Por dedução, se Kell é alguém que se destaca dos demais, poderíamos ter uma personalidade egocêntrica e muito chata aqui, o que é o contrário. Suas motivações e anseios o fazem ser humilde e compassivo, e tudo isso vai crescendo e transcendendo com o andamento das páginas.

A história começa a tomar forma quando Kell faz algo que não devia, deixando todas as Londres em grande perigo. Um artefato com magia negra e pulsante conseguiu viajar de um universo para o outro, o que é praticamente fatal e proibido. A carreira solo de herói do nosso Antari não é bem sucedida graças a entrada de uma personagem. Ou melhor, a personagem: Delilah “Lila” Bard.
Minha queda por personalidades femininas fortes pode ter ajudado altamente em meu julgamento da obra, contudo, é impossível ignorar a existência e importância de Lila à trama. Primeiramente, ela se encaixa – ao se encontrar com Kell – como protagonista também. Segundo, em vez de ser poderosíssima e cheia de magia para esbanjar por ai, a ladra “moleca” de rua não usufrui de nada disso, somente de sua astúcia, ironia, inteligência e ótima habilidade com facas, pistolas e espadas. Em terceiro ponto, não temos aqui a “princesinha em perigo” que sempre é salva pelo herói, mas sim uma mulher de personalidade fortíssima com alto teor de orgulho, o que às vezes a faz embarcar em perigo atrás de perigo. Sua aparência nem um pouco atraente – magricela, cabelo curto estilo Chanel, roupas que lembram trajes piratas – deixa ainda mais claro que V. E. Schwab não quer uma donzela, ela quer uma Lila, a qual muitas vezes chega a ser confundida com um homem por seus trejeitos.

Lila Bard por @victoriaying (minha arte favorita!)

A química entre ambos personagens é muito boa e divertida. Confesso que muitas vezes quis pular para capítulos onde eu sabia que os dois estariam juntos. Deixando bem claro de agora que não, não são um “casal” propriamente dito. São mais para algo, e o pronominal indefinito dá conta do significado por si só. A amizade e a vontade de ajudar – tanto um ao outro quanto também à própria pele – deixa a relação ainda mais deliciosa de ser lida.

O enredo, o qual nos traz altas viagens pelas Londres, além de muita ação e morte, coisa que eu não esperava do livro, já que o mesmo possui características bem parecidas com a dos YA’s. Definitivamente, não é toda criança de 13 anos que vai curtir a leitura. A história aprofunda-se muito na questão da magia, da mesma pura e vívida, como se a magia fosse várias raízes, e as consequências dela virassem frutos, árvores, etc. Há um teor místico quase religioso em relação aos poderes, a como os universos lidam com o poder que lhes fora atribuído. Gostei bastante disso.

Também tive apreço pela ambientação, a qual é totalmente ligada a épocas medievais, com reis, rainhas, castelos e vilarejos, e da narrativa da autora. Como já se há uma experiência no ramo, são raras as pontas soltas que Schwar deixa, apenas as necessárias para um segundo livro, que já está por ai pelos Estados Unidos à fora, menos aqui no Brasil L. Tem como título A Gathering of Shadows (na minha tradução de inglês básico ficou “Um encontro de Sombras”). De acordo com algumas fontes, a previsão para a chegada brasileira do livro está por entre meados de maio de 2017. Um terceiro livro também anda sendo muito comentado por ai, mas como ainda não li informações oficiais sobre o mesmo, deixarei para trazer essa notícia caso ela realmente seja confirmada. Por como o primeiro livro acaba, a ansiedade de começar o segundo já está me deixando louca desde já!

Somente alguns pontos os quais se estudados, em minha opinião, não dão a Um Tom uma nota 10. Para mim, a história demorou demais para ser iniciada de fato. Com certeza com um capítulo a menos, a mensagem conseguiria ser passada e todos entenderiam o que a premissa, mesmo um pouco mais curta, iria transmitir. Quando estamos no meio do livro, é notório que o mesmo já ganha um ritmo mais acelerado, o que me fez querer que houvesse, pelo menos, 10 páginas a mais no fim. Achei a “batalha final” fácil demais de ser derrotada, mediante à fama dos vilões (não os revelarei, não se preocupem) e eu também esperava por melhores explicações para os acontecimentos que se sucederam e os que ficaram para trás. Um personagem em particular, Holland, também um Antari, o qual é dono de um passado peculiar e cheio de mistérios,  foi-se construído de maneira rasa, com motivos não tão convincentes e participação daquele tipo “mais do mesmo”, e o seu desfecho.... Um legalzinho virado para baixo com certeza.


Um Tom Mais Escuro de Magia foge dos padrões YA’s da distopia do mundo em que já estamos cansados de ver. Com muita profundidade e ação, foi com certeza uma leitura de literatura fantástica que ficou gravada em meu coração. 

YA é uma sigla bastante usada no meio literário. É a abreviação de Young Adults, que nada mais seria a classificação infanto-juvenil aqui no Brasil.